terça-feira, 10 de março de 2009

Lavar as luvas para não comprometer as mãos


DESAMADOR
Fabrício Carpinejar

Não sou capaz de amar por piedade. Amar é estar no mesmo nível, com a mesma altura dos ombros, o tremor de balbuciar e logo beijar para não esquecer o que o corpo pede. Não é rebaixar ou cumprir um favor. Amar não é uma compensação.

Amar não dá poder, é o despoder. Ensina a generosidade, a vontade de se diminuir para que o amor aumente. Amar é ceder o gosto, a vida, o futuro. É oferecer a metade da gaveta, da cama, da luz, do banho, da mesa, da folha. É oferecer o que ainda nem se chegou a conhecer.

Tenho sim piedade daqueles que empregam o amor como forma de tirania. Que falam em vão do amor como se fosse fácil encontrá-lo. Que não exercitam a delicadeza, a retribuição e o cuidado atento e gritam com quem quer apenas sussurrar.

Armam-se do autoritarismo, da vassalagem, da discórdia. Não aceitam o contraponto, a discordância. Para assegurar o domínio, rebaixam seu par para que ele fique dependente, menor, indefeso (não forte, confiante e otimista como deveria ocorrer e que acarretaria independência). Que envenenam com ofensas indiretas ou ironias quando sua vítima está desprotegida. Que não entendem que toda palavra é um pedaço da boca e que a boca sangra com facilidade. Que acreditam que o parceiro ou parceira não tem escolha e que ficará se sujeitando aos seus terrores e dissabores.

Da figura do desamado, o que sofre solitário, surge o desamador, o que desagrega a solidão e faz sofrer. Porque ele recebe o amor e troça de sua força. Seduz por diversão e hábito, pouco se importando com o envolvimento que se segue. O desamador dirá depois de usar o amor: "Não prometi nada". Lavará as luvas para não comprometer as mãos. Omitirá compulsivamente, que é mais repulsivo do que mentir.

O desamador não tem nada a perder, pois não ama. O desamador chamará qualquer cobrança de neurose, de doença, de loucura. Fará a pessoa se sentir torta, infeliz, incriminada de rancor. Depois ainda vai contar por seus amigos e amigas que está sendo perseguido e apagará o que não combina com sua versão.

O desamador não fica doente, adoece o mundo. O desamador não é facultado ao ódio, quem dera. O ódio ainda facilita o amor. O desamador recorre à intolerância. Chora somente no sufoco, pede desculpas no momento de ser desmascarado, mas não muda, continuará maltratando com a indiferença. Ele não é bom muito menos ruim, é apático. Seu autoritarismo é negação da fraqueza. Tudo o que acontece de errado em sua vida vai transferir para quem está ao seu lado.

O desamador emprega a crueldade da reticência, do subentendido, não assume suas escolhas. Induz sua companhia a entender sem dizer nada. O desamador gera culpa, dúvidas, incertezas. Não declara sim ou não. Delicia-se com a confusão. Quanto mais culpa, mais ele exercerá sua autoridade. Parte da ilusão de que ele ou ela não voltará atrás. Condiciona seu afeto a uma esmola.

Custo a crer que o desamador nasceu do ventre de uma mulher.


crédito da foto:
http://leweb.dailytwitter.com/wp-content/uploads/2008/12/20070902193905-au-revoir.jpg

segunda-feira, 9 de março de 2009

Como se tivesse 10 anos...



Obrigada pelo texto lindo!!!


A Carolina é uma menina engraçada.

Eu acho que ela pensa, na verdade, eu acho que ela tem certeza, que eu sou louco. Na verdade ela já falou isso... assim desse jeito mesmo, você que é louco! Mas acho que ela não liga muito pra isso não. No começo talvez. Acho que ela pensou, que eu queria roubar um Rim ou algo parecido. Mas deixa pra lá.

Mas muito engraçada essa menina, ela foi amamentada só 18 dias.
Ela fala que não come carne vermelha, mas já comeu 2 Big tastes, 4 temakis, e minhas batatinhas, tudo isso na mesma noite.

Ela diz que não bebe também, mas já fiquei sabendo de pelo menos dois pilequinhos na mesma semana. Palavrão, não, ela não fala... um pouquinho, mas é só um Fuck de leve e quando tá de pilequinho.

Ela joga tênis e squash, isso todo mundo sabe. Mas talvez nem todos saibam que ela monta CD´s fantásticos... é porque ela toca piano e sabe o momento exato de encaixar a próxima música.

Ela diz que coloca os dois pés na cabeça, mas isso eu nunca vi! Acho que ela fala só para eu me desfazer do meu alongamento matinal...

Ela gosta de falar, falar, falar e falar. Faladeira essa menina, muito simpática ela! Acho que ela gosta de desenho também e de desenhar.

Ela tem uma franjinha milimetricamente pensada, e as unhas redondinhas impecáveis... e fica muito brava quando está no salão de beleza e as pessoas mandam SMS. Porque ela fica curiosa, lê a mensagem e acaba estragando o trabalho da manicure.

Daí ela fica brava. Liga para vc e briga, e você fica rindo internamente. Talvez ela fique nervosa e brava de verdade... é acho que ela fica, mas muito amável ela. E você acaba se divertindo, porque você se sente com 10 anos sempre que fala com ela.

Porque ela é muito madura, talvez nem seja, mas é melhor pensar que sim e evitar maiores atitudes de 10 anos, como essa.

Aí você tem frio na barriga, pede ela em casamento, faz corações na mão e fica com a mão toda rabiscada com coraçõezinhos que não vão sair nos próximos meses. Você não tem como explicar pras pessoas o que são os corações... aí você se complicou de vez e ela nem fica sabendo.

Aí você tem raiva e manda uma mensagem pra ela. Que raiva de você! Mas rapidinho você fica feliz de novo e pensa ainda existe elegância no mundo! E como é elegante essa menina.

Ela falou que hoje é o dia da poesia, e eu tentei fazer um poema, mas eu não sei escrever, então fiz uma foto. Escrevi isso aí, porque quando eu tinha dez anos era mais fácil. Você fazia um coração e puxava o cabelo dela. Ela batia em você, e você ia dormir cedo, pra chegar logo amanhã.

Ela falou que eu sou dramático eu disse que sou ariano. Ela foi embora e não quis me ver bonitão de calça xadrez e óculos verdes. Quantos anos eu tenho mesmo?!

Carolinaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah

Que o faz-de-conta terminasse assim...


"Você sabe o que é o encanto: é ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada" - Albert Camus


Postei na apresentação do blog a frase: Diário de uma "encantada" no mundo real.

Adoro a palavra encanto...encantado, encantada! Embora seja grande, o seu efeito é pequeno no mundo atual - que é tão ocupado. É como se fosse uma mágica: rápido e sem reticências. Acabou o encanto e pronto! Não sei o porquê, mas não existe mais. É duro para quem ouve, sente...

Dificil é manter o encantamento. Hoje em dia tudo é muito cíclico e veloz. A cada momento surgem novidades. Quanta injustiça: como competir a tanta variedade??? Quando mal se foi já está voltando.

O assunto me fez lembrar uma música, e pelo visto, a palavra Encantada não é só tema do blog como será de muitos textos também durante um bom tempo.

A música é do Chico Buarque: João e Maria.

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Cadê o meu sapatinho?

Por que certos poemas fazem a alma bater palmas? Músicas, sons, dizem mais sentimentos que conferências?! Gestos, olhares, luzes, sons...alguns são tão mais perfeitos um que o outro. O que os torna tão especiais!

Hoje, recebi um poema lindo de um amigo muito querido. Aqui agradeço as palavras tão belas escritas por ele. Me senti muito bem, por isso, digo em voz alta e "bem grande":

Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada...

...já te disse obrigada! Obrigada!

Poema que recebi:

perdido eu estava
andando distraido

andei
andei
andei

achei um sapatinho
mas continuei perdido
com aquele sapatinho

pensei até demais
ouvindo meus sentidos

amei
amei
amei

a dona desse sapatinho

- acabei de fazer esse poema pra vc cinderela

autoria: o grande amigo querido!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Não quero trabalhar, não quero almoçar...só quero esquecer!

Ontem acordei 16h30. Não é luxo nem bonito comentar fazer isso.

Não trabalhei, não almoçei...tomei apenas um vitamina que nem sei qual o sabor.

A única coisa que fiz ao acordar foi mudar de cama. Caminhei poucos passos para o quarto dos meus pais e lá fiquei!

Acredito ter sensibilidade exagerada. Embora a solidão não seja nenhuma dificuldade para mim, descobri que relacionar-se é essencial. E quis! Me permiti.

Não gosto que invadam meu território, mas dessa vez, não me importaria se isso acontece. Minha solidão é preciosa...

Constante!!! Amo essa palavra. Como desejei que tudo fosse constante. Paixão não é igual a pão-de-queijo que assa a qualquer hora, poxa! Mas tem gente que acha que é. Esfriou! Ah não quero mais não. Quem sabe não encontro outro melhor na loja do lado. E assim mais um caso se acaba. Mais uma vez se magoa, sem achar que está magoando. Que ofício é esse!

Já errei, ja botei culpa nos carnavais, já botei a culpa nos amores contrariados. Já tentei aprisionar os meus sentimentos, já me condenei à prisão perpétua. E também já sei que não vale a pena radicalizar. Não sou e nunca serei perfeita. Mas, poxa, como tento!

Isso me fez lembrar uma das minhas músicas prediletas: Sympathique (Simpática), de Pink Martini.



Sympathique (Simpática)

Ma chambre a la forme d'une cage (Meu quarto na forma de uma gaiola)
Le soleil passe son bras par la fenêtre (O sol passa seu braço pela janela)
Les chasseurs à ma porte (Os caçadores à minha porta)
Comme les p'tits soldats (Como soldadinhos)
Qui veulent me prendre (Que querem me pegar)

Je ne veux pas travailler (Não quero trabalhar)
Je ne veux pas déjeuner (Não quero almoçar)
Je veux seulement l'oublier (Quero somente esquecer)
Et puis je fume (E depois eu fumo)

Déjà j'ai connu le parfum de l'amour (Já conheci o perfume do amor)
Un million de roses n'embaumerait pas autant (Um milhão de rosas não exalariam o mesmo cheiro)
Maintenant une seule fleur dans mes entourages (Manter uma flor apenas no meio de tudo)
Me rend malade (Me deixa mal)

Je ne veux pas travailler (Não quero trabalhar)
Je ne veux pas déjeuner (Não quero almoçar)
Je veux seulement l'oublier (Quero somente esquecer)
Et puis je fume (E depois eu fumo)

Je ne suis pas fière de ça (Não tenho orgulho dessa...)
Vie qui veut me tuer (...vida que quer me matar)
C'est magnifique être sympathique (É magnífico ser simpática)
Mais je ne le connais jamais (Mas eu jamais soube fazer isso)

Je ne veux pas travailler (Não quero trabalhar)
Non
Je ne veux pas déjeuner (Não quero almoçar)
Je veux seulement l'oublier (Quero somente esquecer)
Et puis je fume (E depois eu fumo)

Je ne suis pas fière de ça (Não tenho orgulho dessa...)
Vie qui veut me tuer (...vida que quer me matar)
C'est magnifique être sympathique (É magnífico ser simpática)
Mais je ne le connais jamais (Mas eu jamais soube fazer isso)

Je ne veux pas travailler (Não quero trabalhar)
Non
Je ne veux pas déjeuner (Não quero almoçar)
Je veux seulement l'oublier (Quero somente esquecer)
Et puis je fume (E depois eu fumo)

segunda-feira, 2 de março de 2009

A Primeira Vez

Cena do filme Diário de uma paixão

A primeira vez se fez em susto
pois o que se inaugura tranborda em taças.

A primeira vez é sempre única
é o primeiro dia do ano
a primeira vez que se sai juntos para jantar
a primeira briga

É a primeira vez que o mineiro vê o mar. Que delícia!

Quem não sabe da primeira vez
não sabe o que é amar
ignora a palavra emoção
esqueceu o que é brincar

Quem não se lembra nem da primeira vez
pouco provável que se dará a segunda vez.

Ah, a primeira vez é correr atrás do trem,
tomar banho de chuva,
contar os dias, as horas, os minutos para se fazer surpresa no saguão do desembarque (seja qual ele for)
é se lambuzar de sorvete
é desenhar corações no carro sujo do namorado
e, sem saber do quê, achar graça.


A primeira vez é ter sete anos e aprender a andar de patins
é ter um segredo, uma chave que abre todas as portas e a ilha certa.
É ser grande, pequeno, boboca, e sábio
tudo ao mesmo tempo.

É ter a emoção nas mãos, o coração aos pulos e as pernas bambas.
Amar pela primeira vez é ser super-herói, justiceiro e parceiro.
É não saber, mas querer aprender.

Amar pela primeira vez é se alfabetizar novamente
nas letras do corpo, nas formas do outro e...
...ver-se abrir não um livro, mas uma enciclopédia que se quer dominar.

Pela primeira vez se fazer amar
é ser anão e gigante, se sentir forte e diferente,
é soltar os cabelos ao vento e dirigir rumo a qualquer lugar...
e acima de tudo...
reconhecer-se na segunda vez!

Diz que fui por aí













Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando o violão embaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela



crédito da imagem: http://www.musicoterapia.psc.br/violao.JPG